Historicamente,
a teoria crítica identifica-se com o grupo de investigadores que frequentou o
Institut für Sozialforschung, de Frankfurt. Fundado em 1923, este Instituto
torna-se um centro importante, adquirindo a sua identidade definitiva com a
nomeação de Max Horkheimer para seu director. Com o advento do nazismo, o
Instituto (conhecido, na época, como Escola de Frankfurt) é obrigado a fechar e
os seus representantes principais emigram, primeiro para Paris, depois para
várias universidades americanas e, finalmente, para o Institute of Social
Research, em Nova lorque. Reaberto em 1950, retoma a sua actividade de estudo e
pesquisa, prosseguindo na atitude teórica que o tinha distinguido desde o
início e que motivara a sua originalidade, isto é, na tentativa de fundir o
comportamento crítico nos confrontos com a ciência e a cultura com a proposta
política de uma reorganização racional da sociedade, de modo a superar a crise
da razão.
A identidade
central da teoria crítica configura-se, por um lado, como construção analítica
dos fenômenos que investiga e, por outro, e simultaneamente, como capacidade
para atribuir esses fenómenos às forças sociais que os provocam. Segundo este
ponto de vista, a pesquisa social levada a efeito pela teoria crítica, propõe-se
como teoria da sociedade entendida como um todo; daí, a polémica constante
contra as disciplinas sectoriais, que se especializam e diferenciam
progressivamente campos distintos de competência. Procedendo assim, essas
disciplinas - vinculadas à sua correcção formal e subordinadas à razão
instrumental - desviam-se da compreensão da sociedade como um todo e, por
conseguinte, acabam por desempenhar um função de manutenção da ordem social
existente. A teoria crítica pretende ser o oposto, pretende evitar a função
ideológica das ciências e das disciplinas sectorializadas.
Aquilo que, para
estas últimas, constitui «dados de facto» é, para a teoria crítica, produto de
uma situação histórico-social específica: «os factos que os sentidos nos
transmitem são prefabricados socialmente de dois modos - através do carácter
histórico do objecto percebido e através do carácter histórico do órgão perceptivo.
Nem um nem outro são meramente naturais; são, pelo contrário, formados por meio
da actividade humana» (Horkheimer, 1937, 25, citado em Rusconi, 1968).
Denunciando a
separação e a oposição do indivíduo em relação à sociedade como resultante
histórica da divisão de classes, a teoria crítica confirma a sua tendência para
a crítica dialéctica da economia política. Consequentemente, o ponto de partida
da teoria crítica é a análise do sistema da economia de mercado: «desemprego,
crises económicas, militarismo, terrorismo, a condição global das massas - como
é sentida por elas - não se baseia nas possibilidades técnicas reduzidas, como
era possível no passado, mas em relações produtivas já não adequadas à situação
actual» (Horkheimer, 1937, 267).
Dentro das aquisições
fundamentais do materialismo marxista, a originalidade dos autores da Escola de
Frankfurt (de Horkheimer a Adorno, de Marcuse a Habermas) consiste em
enfrentarem as temáticas novas que se aproveitam das dinâmicas societárias da
época como, por exemplo, o autoritarismo, a indústria cultural e a
transformação dos conflitos sociais nas sociedades altamente industrializadas.
«Através dos fenómenos supra-estruturaís da cultura ou do comportamento
colectivo, a "teoria crítica" pretende penetrar no sentido dos
fenómenos estruturais, primários, da sociedade contemporânea, o capitalismo e a
industrialização» (Rusconi, 1968, 38).
É nesta
perspectiva que, segundo a teoria crítica, todas as ciências sociais que se
reduzem a meras técnicas de pesquisa, de recolha, de classificação dos dados
«objectivos, vedam a si próprias a possibilidade de verdade, na medida em que,
programaticamente, ignoram as suas intervenções sociais. É necessário
«libertar-se da pobre antítese de estática e dinâmica sociais que se manifesta
na actividade científica, em primeiro lugar, como antítese de doutrina
conceptual da sociologia geral, por um lado, e como empirismo sem
conceptualização, por outro» (Horkheimer - Adorno, 1956, 39).
A teoria crítica
propõe-se realizar aquilo que escapa sempre à sociologia ou que para a
sociologia sempre remete, ou seja, uma teoria da sociedade que implique uma
avaliação crítica da própria construção científica.
A sociologia
transforma-se em crítica da sociedade no momento exacto em que não se limita a
descrever as instituições e os processos sociais e a reflectir sobre eles para,
pelo contrário, os confrontar com a vida daqueles a que se sobrepõem as
instituições e de que eles próprios vêm a fazer parte das mais variadas maneiras.
Quando a reflexão sobre o que é a «sociedade» perde de vista a tensão existente
entre instituições e vida, e procura, por exemplo, dissolver o social no
natural, não faz um esforço para a libertação da pressão das instituições: pelo
contrário, corrobora numa segunda mitologia, a ilusão idealizada de qualidades
inatas que faria realçar aquilo que surge precisamente por intermédio das instituições
sociais (Horkheimer - Adorno, 1956, 36).
Ou, como diz
mais enfaticamente Marcuse,
«os fins
específicos da teoria crítica são a organização de uma vida em que o destino
dos indivíduos seja dependente não já do acaso e da cega necessidade de
incontrolados laços económicos, mas da realização programada das possibilidades
humanas» (Marcuse, 1936, 29, citado em Rusconi, 1968).
Fonte: WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Ed. Presença, 1999.
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